23/04/14

POEMA DE ALEXANDRE O’NEILL



Portugal

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial, a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjetivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado, feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

Alexandre O’Neill (1924-1986)

21/04/14

A ÉTICA EXIGE O TRATAMENTO DA DOR

O tratamento da dor, ou ao menos a tentativa de a minorar, representam, na longa história (e pré-história) da medicina um dos dados adquiridos que ninguém põe em dúvida. Há imagens de Esculápio (ou Asclépio, na versão grega original) segurando na mão esquerda a serpente enrolada no bastão e, na mão direita, algumas cápsulas de dormideira ou Papaver somniferum, cujo sumo concreto, obtido por incisão, é o ópio. Repare-se: o símbolo da própria arte de curar fica assim preterido (na sinistra) em relação ao princípio vegetal capaz de tratar a dor (na dextra). Hipócrates, no século IV antes de Cristo não hesitou em atribuir às mãos dos médicos características divinas, mormente quando da sua ação resultasse o alívio da dor (“É divino sedar a dor”, proclamava). E o nosso Zacuto lusitano (nascido como Francisco Nunes em 1575) deixou inscrita, na listagem dos preceitos médicos, esta notável instrução: Medicus inter omnia symptomata, prius dolorem sedet (Entre todos os sintomas, dê o médico primazia ao alívio da dor).
 
Esta especial atenção à dor parece compreensível: é o sintoma que mais incomoda, aterroriza ou provoca sofrimento ao doente e, por extensão, aos que o rodeiam. Por natureza, é entendida como sensação desagradável, podendo ter uma graduação que vai do ligeiro incómodo ao insuportável sofrimento. Temos pois doentes que desejam obter alívio e médicos que são competentes para conhecer os meios propiciadores desse alívio e o modo como podem ser usados. Os médicos da antiguidade só podiam recorrer ao ópio e às bebidas alcoólicas; só a partir de 1820 é que fica disponível a morfina que, para maior eficácia, passa a ser administrada por via injectável, graças à invenção da seringa hipodérmica. Mas só no adiantado século XIX é que surgem os anestésicos e, graças ao seu uso, a cirurgia torna-se uma terapia e deixa de ser uma indizível tortura à qual só se recorria em desespero de causa.
 
Depois vieram analgésicos, ativos por via oral, opioides, analgésicos e antipiréticos, com ou sem componente anti-inflamatória, anestésicos locais, técnicas psicológicas, aplicações eléctricas, etc. Ou seja, temos hoje armas potentes, diversificadas, que permitem um tratamento diferenciado dos mais diversos tipos de dor (de que temos também cada vez melhor conhecimento científico, quanto aos seus mecanismos e mediadores). Mas é surpreendente verificar que ao sintoma dor não parece dar-se hoje a importância que os antigos lhe atribuíam. Ou seja, ao maior conhecimento da natureza da dor e dos mecanismos que lhe subjazem não tem correspondido uma uniforme e acentuada melhoria do seu tratamento, apesar dos meios eficazes de que dispomos para a combater.

De facto, se cerca de um terço da população portuguesa sofre de dor crónica, tal só se pode dever a um tratamento ineficaz, por esporádico, insuficiente (na posologia e na duração) e muitas vezes menos correto (por não se recorrer aos medicamentos e esquemas terapêuticos mais indicados e apoiados em sólidas provas clínicas). Não é crível que estas circunstâncias adversas se compaginem com ignorância ou dolo médico, antes se deverão a uma subavaliação da dor (descartado por pacientes e, sobretudo, por médicos quando não aguda e intensa) e ao preconceito da perigosidade dos analgésicos, mormente dos anti-inflamatórios e dos opioides.

Ora, a deontologia, apoiada numa ética universalmente aceite (mas nem sempre presente na decisão médica) e no bom senso, apontam a dor como sintoma a valorizar, certamente, mas como situação mórbida a exigir tratamento. Os princípios éticos da beneficência, da solidariedade e da subsidiariedade não levam a outra conclusão senão a propugnada há tantos séculos por Hipócrates ou por Zacuto: é fortíssima obrigação médica a de tratar, sempre, a dor; é perverso pactuar com a dor, deixando o doente à sua mercê, por não ser alvo de tratamento ou por o ser de forma incompleta ou inadequada. Não recorrer a um meio apropriado e disponível, em face de uma situação que constitua uma indicação para o seu uso, constitui erro grave ou indício de negligência médica.
 
Prius dolorem sedet, demos a devida prioridade ao tratamento da dor, para podermos minorar ou suprimir o sofrimento dos doentes e assim nos aproximarmos do ideal multisecular do médico sábio e compassivo.
 
Prof. Doutor Walter Osswald
Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa

17/04/14

PÁSCOA FELIZ!



From heaven you came, helpless babe,
Entered our world, your glory veiled;
Not to be served but to serve,
And give your life that we might live.
This is our God, the Servant King,
He calls us now to follow him,
To bring our lives as a daily offering
Of worship to the Servant King.


There in the garden of tears,
My heavy load he chose to bear;
His heart with sorrow was torn,
'Yet not my will but yours,' he said.
This is our God, the Servant King,
He calls us now to follow him,
To bring our lives as a daily offering
Of worship to the Servant King.


Come, see his hands and his feet,
The scars that speak of sacrifice,
Hands that flung stars into space
To cruel nails surrendered.
This is our God, the Servant King,
He calls us now to follow him,
To bring our lives as a daily offering
Of worship to the Servant King.


So let us learn how to serve,
And in our lives enthrone him;
Each other's needs to prefer,
For it is Christ we're serving.
This is our God, the Servant King,
He calls us now to follow him,
To bring our lives as a daily offering
Of worship to the Servant King.

15/04/14

O CÓDIGO DE NUREMBERGA


O Código de Nuremberga resultou da sentença promulgada em 1947 pelo Tribunal Militar de Nuremberga, na sequência dos atos perversos e criminosos praticados pelos médicos nazis em experiências com seres humanos, e que levou à condenação de vários médicos alemães. Este documento constitui um ponto de partida e uma referência para as declarações e códigos internacionais de ética médica que se lhe seguiram, com destaque para a Declaração de Helsínquia e a Convenção dos Direitos do Homem e da Biomedicina.

No Código de Nuremberga é enfatizada a obrigatoriedade do consentimento consciente, livre e informado do sujeito da experimentação, bem como a possibilidade da investigação ser interrompida, em qualquer fase, por sua livre iniciativa. Inclui o princípio da beneficência, na medida em que a experimentação deve ter como finalidade o benefício do indivíduo ou da sociedade, e os riscos sofridos pelo sujeito não podem exceder a importância humanitária da experiência. Inclui ainda o princípio do carácter científico, pois a experiência deve ser realizada por cientistas competentes, segundo as regras do método científico, bem como o princípio da reversibilidade dos danos, ou seja, o indivíduo não pode correr um risco de morte ou de invalidez em nenhum momento da experimentação. A experimentação em seres humanos deve, pois, reger-se por princípios que salvaguardem a integridade física e mental do sujeito alvo da experiência, sendo imprescindível o seu consentimento livre e informado.
 
 A Declaração de Helsínquia, aprovada em 1964 pela Associação Médica Mundial e alvo de sucessivas revisões (a atualização mais recente ocorreu em Fortaleza em 2013), baseia-se nos valores e princípios defendidos pelo Código de Nuremberga e pela Declaração de Genebra, sendo um documento basilar na investigação científica em seres humanos. No entanto, a sua aplicação e cumprimento dependem, em grande parte, da consciência e probidade do investigador. O Prof. Daniel Serrão, num artigo que escreveu para assinalar o 50.º aniversário do Holocausto, recorda a opinião do cirurgião Rudolf Pichlmayr acerca da legislação alemã de 1931, pelo menos tão rigorosa como o Código de Nuremberga, mas que não evitou a participação dos médicos no Holocausto: “os códigos são fracos, face a um regime brutal que volte a aparecer, repetindo o nazismo, porque ele deitará os códigos pela borda fora. O grande valor a fomentar e a vigiar é o da integridade dos médicos como pessoas, porque os valores são mais importantes que os códigos".

09/04/14

PARAGEM CARDÍACA: O QUE FAZER?




Uma paragem cardíaca ou cardiorrespiratória é a interrupção súbita e inesperada da respiração e dos batimentos cardíacos. Não inclui a morte natural por envelhecimento nem a morte por uma doença crónica e irreversível. Em caso de paragem cardiorrespiratória, devemos tentar evitar a morte através de medidas de reanimação.

Em alguns países é habitual ver pessoas sem formação médica tentar reanimar pessoas que tenham sofrido paragem. Você também pode fazê-lo.

O que deve fazer?

Siga os seguintes passos se alguém a seu redor perder o conhecimento:

1.  Grite e sacuda-o para comprovar se responde. Se não responder, peça ajuda e inicie a reanimação.

2.  Coloque a vítima no chão, incline a cabeça para trás e comprove se respira (se expira ar ou se notam movimentos respiratórios no peito ou na barriga).

3.  Se não respira, abra-lhe a boca e com o dedo tire tudo aquilo que o pode impedir de respirar: comida, dentadura se estiver deslocada, etc. Não retire a dentadura se esta estiver bem colocada.

4.  Pratique a respiração boca-a-boca. Com uma mão mantenha a boca aberta afastando o queixo. Com a outra tape o nariz. Depois inspire, sele a sua boca à da vítima e expire ar como se estivesse a encher um balão (chama-se ventilar). Espere 3 ou 4 segundos antes da segunda ventilação.

5.  Após as duas primeiras ventilações, observe se a vítima respira, tosse, engole ou se mexe. Se não acontecer nada, deve começar a massagem cardíaca.

6.  Ajoelhe-se junto à vítima, estenda os braços e apoie as suas mãos cruzadas sobre o peito da vítima entre os 2 mamilos. Aproveitando o seu próprio peso, pressione com as mãos o peito do doente e veja como este se afunda um pouco (4-5 cm). Para dar massagem cardíaca adequada é útil contar da seguinte forma: «e um, e dois, e três, etc.», a uma frequência de 100 por minuto.

7.  Se se tratar de um bebé, a massagem faz-se com a ponta de dois dedos; nas crianças com menos de 8 anos, com uma mão apenas.

8.  Por cada 30 compressões deve dar 2 ventilações, e assim sucessivamente até que a vítima respire ou se mexa, ou até que passem 20-30 minutos de reanimação sem nenhum resultado ou você esteja exausto e lhe seja impossível continuar reanimando.

Se em algum momento a pessoa respira, se mexe ou tosse, deve deitá-la sobre o seu lado direito.

Se são duas pessoas a reanimar, devem colocar-se cada uma de seu lado da vítima. Uma se encarregará da ventilação e a outra da massagem cardíaca. Nunca se fazem as duas coisas ao mesmo tempo e devem seguir a cadência de 30 compressões por cada 2 ventilações. Devem trocar de função regularmente, para não ficarem exaustas.

Fonte: Guia Prático de Saúde, p. 172.

07/04/14

PALESTINA: PAZ, SIM. APARTHEID, NÃO

http://www.wook.pt/ficha/palestina-paz-sim-apartheid-nao-/a/id/192973

É este o título certeiro de um livro de Jimmy Carter, antigo presidente dos EUA e Prémio Nobel da Paz, que me ajudou a compreender melhor o contexto histórico e geopolítico do Médio Oriente, sobretudo após o nascimento do Estado de Israel em 1949. Ainda que a cultura da sociedade israelita moderna esteja mais próxima que a árabe do mundo ocidental, nenhuma pessoa de bem deverá ficar indiferente às reiteradas violações por Israel de diversas resoluções das Nações Unidas, apropriando terras, segregando milhares de palestinianos e colocando entraves a uma paz duradoura entre Israel e a Palestina.
  
Apesar das várias iniciativas de Jimmy Carter em prol do diálogo e reconciliação entre os dois Estados, os resultados têm sido escassos e inconsistentes. Nesta obra que recomendo, Carter critica a parcialidade da política externa dos EUA a favor de Israel e compara a política expansionista e segregacionista do Estado judaico ao execrável regime sul-africano nos anos do apartheid.

Pode encomendar aqui.

04/04/14

BIOÉTICA NOS PAÍSES DE LINGUA PORTUGUESA


O Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV) realizará nos próximos dias 5 e 6 de maio de 2014 uma conferência subordinada ao tema Bioética nos Países de Língua Oficial Portuguesa - Justiça e Solidariedade.
 
Este Encontro terá lugar na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e contará com um painel de especialistas de renome dos Países de Língua Portuguesa, assumindo-se como uma ocasião privilegiada para a troca de experiências e o diálogo com a sociedade civil. A entrada é livre, mediante inscrição, para seminarionacional@cnecv.pt ou aqui

02/04/14

PEDALAR PELA SAÚDE

A Holanda apresenta uma das mais elevadas taxas mundiais de utilização da bicicleta como meio de transporte, não obstante o seu clima mais agreste que outros locais do globo. Essa atividade física diária de uma percentagem significativa da população (cerca de 30%) poderá ser um dos fatores protetores de doenças cardiovasculares, oncológicas e obesidade, comparativamente a outros países, que apresentam em média taxas mais altas destas doenças.

 
Em pessoas com doença venosa dos membros inferiores, nomeadamente com insuficiência das veias pequenas safenas (antigamente chamadas veias safenas externas) e em que a cirurgia não seja possível (p. ex. por insuficiência concomitante dos eixos venosos profundos) é muito importante a utilização de meias elásticas durante a prática de ciclismo.


31/03/14

ASMA – UMA DOENÇA TRATÁVEL


Este artigo foi escrito pela minha estimada amiga e colega Dr.ª Adelina Amorim, especialista em Pneumologia.
 
A asma é uma doença inflamatória crónica que afeta os brônquios e que se caracteriza por episódios recorrentes de limitação da passagem de ar. Poderá ser alérgica ou não.
 
Quem afeta?
 
Calcula-se que a asma afeta cerca de 300 milhões de pessoas no mundo, sendo mais frequente nos países ocidentais, nas áreas urbanizadas.
A asma pode ocorrer em qualquer fase da vida, embora seja mais comum desenvolver-se na infância. Estima-se que em 30-50% das crianças os sintomas da asma desaparecem durante a puberdade mas é comum ressurgir na idade adulta. Até aos 14 anos a asma é quase duas vezes mais frequente nos rapazes mas na vida adulta as mulheres são mais afetadas.
 
Como se manifesta?

A doença manifesta-se principalmente por episódios de falta de ar e tosse, particularmente à noite ou no início da manhã. Pode também ser percetível  ao doente a presença de pieira (“gatinhos”, “chiadeira”) e sentir aperto ou sensação de peso no peito. Nem sempre estão presentes todas estas queixas, havendo casos, por exemplo, em que tosse seca persistente e com agravamento preferencial à noite pode ser uma manifestação de asma. O agravamento noturno tem sido atribuído a variações dos níveis de certas hormonas ao longo das 24 horas, bem como à redução durante a noite de mecanismos anti-inflamatórios do nosso organismo. Os sintomas podem melhorar espontaneamente ou através de medicação adequada.

As queixas referidas ocorrem também noutras doenças pulmonares, pelo que o diagnóstico final baseia-se na história clínica e também no resultado de alguns exames, sendo os mais importantes as provas funcionais respiratórias e os testes cutâneos e/ou sanguíneos de alergias.

A gravidade da asma é variável sendo classificada em 4 graus: intermitente e persistente ligeira, moderada ou grave. É importante que os doentes saibam que mesmo as formas mais leves podem associar-se a crises graves, potencialmente fatais.

Quais as causas e fatores de risco?

Muitos doentes ou pais se questionam sobre o porquê do aparecimento da asma. A verdade é que nem sempre a resposta que o médico dá é clara ou satisfatória e isto deve-se, em grande medida, ao facto de se tratar de uma doença multifatorial e com mecanismos subjacentes complexos e ainda não totalmente conhecidos.

 Os vários fatores que influenciam o risco de asma podem-se agrupar nos que causam a doença e nos que levam ao aparecimento dos sintomas, ou seja, ao desenvolvimento das crises de asma. De forma resumida a doença manifestar-se-á nas pessoas que têm um predisposição genética mas após exposição a fatores ambientais de risco. É, portanto, consequência de uma complexa interacção de múltiplos genes e o ambiente.

A obesidade tem sido apontada como factor de risco, sendo mais frequente e mais difícil de a controlar em doentes obesos.

Algumas características da alimentação dos países ocidentais também têm sido associadas ao risco de asma, tais como, o aumento do consumo de alimentos processados, de gorduras polinsaturadas n-6 (existente nas margarinas e óleo vegetal) e a diminuição do consumo de antioxidantes (contidos nas frutas e vegetais) e gorduras polinsaturadas n-3 (presente no óleo de peixe). Alguns dados apontam para que a amamentação materna tenha um papel protetor para o desenvolvimento de asma.

Certas profissões têm sido associadas ao risco de aparecimento de asma e, até à data, mais de 300 substâncias já foram identificadas. Como exemplo de algumas atividades de risco são o fabrico de detergentes, de conservas de peixe, os trabalhadores hospitalares, de serrações, de aviários, de silos de cereais, de refinarias, carpinteiros, padeiros, veterinários, estivadores, agricultores, esteticistas, etc.

Os sintomas podem surgir ou ser agravados  pelo exercício físico, poluição, condições climáticas, infeções víricas, exposição ao tabaco, stress emocional, riso e alergénios inalados.

A origem dos alergénios inalados pode ser o ambiente doméstico ou a natureza. No primeiro grupo incluem-se os ácaros como principal fonte, seguido dos animais domésticos, das baratas e dos fungos ou bolores. Dentro dos animais domésticos o gato é o mais importante, seguido do cão e por fim de outros animais de estimação como hamsters e coelhos. Os alergénios encontrados na natureza mais comuns são os pólens de árvores (mais na Primavera) e de ervas (mais na Primavera e Verão) .

Como tratar?

Para que um doente adira a um tratamento, em qualquer patologia, é importante que este entenda minimamente o que é a doença, qual o objetivo do tratamento e como deve tomar a medicação. Na asma esta verdade assume ainda uma maior importância, dado ter um comportamento muito variável ao longo do tempo e consequente necessidade de ajustes frequentes das doses e mesmo do tipo de fármacos. Quando o doente estabiliza tem tendência a reduzir ou mesmo parar a medicação, levando a recaídas frequentes.

Outro motivo que ressalta a importância do ensino relaciona-se com o facto de  grande parte da medicação ser administrada através de inaladores (comummente designados pelos doentes de “bombas”), cujo funcionamento correto exige um esclarecimento adequado.

Apesar de haver no mercado atualmente grande variedade de inaladores, eles podem ser agrupados nos de alívio, que correspondem a broncodilatadores e nos de efeito anti-inflamatório, de ação preventiva, sendo os corticóides os mais importantes.  

Há uma tendência dos doentes optarem pelo uso exclusivo dos broncodilatadores, uma vez que com estes sentem alívio imediato da falta de ar. Em doentes com sintomas intermitentes isto poderá ser suficiente mas em grande parte dos casos não é e se não for associado o corticóide inalado, ou outros fármacos de ação anti-inflamatória, dificilmente se consegue o controlo da doença.  Para contrariar esta tendência atualmente estão disponíveis inaladores que combinam ambos os fármacos. É muito importante que o doente siga estritamente o plano recomendado pelo seu médico assistente e compreenda bem para que servem e como funcionam os inaladores prescritos.

Nos doentes que também têm rinite, o que corresponde a 80% dos doentes com asma,  o tratamento nasal adequado contribui também para o controlo da asma.

Como prevenir?

Prevenir as crises de asma é o meio mais eficaz de controlar a doença. Para prevenir eficazmente é necessário em primeiro lugar identificar os fatores desencadeantes das exacerbações e aprender a evitá-los.

No caso de se tratar de asma alérgica, com  sintomas associados à exposição e comprovação através de testes adequados para o(s) alergénio(s) em causa, deverão ser cumpridas as medidas de evicção recomendadas.

Quando os acáros são o principal alergénio as medidas para os evitar centraliza-se particularmente nos cuidados de higiene da cama do doente, mas idealmente toda a casa deve ser alvo de cuidados especiais. Os lençóis e cobertores devem ser lavados semanalmente com água quente (>55ºC),  os colchões e almofadas devem ser protegidos com cobertas, deve-se evitar mobiliário revestido com tecido, as cortinas e peluches devem ser lavados frequentemente e é conveniente retirar tapetes, em particular dos quartos de dormir.

Se a causa forem alergénios animais, estes devem ser retirados de casa ou pelo menos devem ser mantidos fora dos quartos de dormir e devem ser lavados semanalmente.

No caso dos pólens deve-se fechar as portas e janelas de casa, ou do carro se em viagem, quando os valores atmosféricos destes alergénios forem mais elevados.

O número de esporos de fungos pode ser reduzido removendo ou limpando objetos bolorentos.

Quanto a medidas gerais, aplicáveis a qualquer asmático, consta o não fumar, evitar a exposição passiva ao fumo de tabaco, a exposição a fumo de lenha (churrascos/lareiras), sprays domésticos, manter a casa bem ventilada e com baixa humidade e fazer anualmente a vacina da gripe.
 
Dr.ª Adelina Amorim
Pneumologista no Centro Hospitalar de S. João, Porto, Portugal.